9 de agosto de 2010

Morte de rapaz não comove população.

Texto escrito a partir do conto: Uma vela para Dario do livro Cemitério de Elefantes de Dalton Trevisan. (Obrigada Prof. Lausamar por me apresentar um novo contista!)



Na tarde de ontem um curioso fato chamou à atenção de uma cidade inteira. Em Frutal interior de Minas Gerais uma multidão se aglomerou para acompanhar a morte de um rapaz. Segundo informações, Dario, de sobrenome e idade desconhecidos, caminhava pela calçada fumando cachimbo quando sentou na sarjeta. Ele encostou o guarda-chuva na parede e o cachimbo no chão. Algumas pessoas que passaram pelo local perguntaram ao rapaz o que sentia, e não tiveram resposta. Um sujeito afrouxou o cinto e o colarinho de Dario que em seguida começou a espumar pela boca.
Uma senhora gritou que ele estava morrendo e chegaram até a levar o corpo para dentro de um táxi que se recusou a fazer a corrida. Carregaram o corpo até perto de uma farmácia, mas Dario foi deixado na porta de uma peixaria. Um terceiro homem verificou seus documentos e concluiu que o rapaz era de outra cidade. Quando o carro da polícia se aproximou a multidão se afastou e pisoteou o corpo dezessete vezes. O guarda não pode identificar o corpo que ficou na calçada, e disse que uma ambulância buscaria o corpo.
Um menino acendeu uma vela ao lado do corpo. Uma criança que foi a única pessoa a se comover com a morte fatal.  A multidão foi embora e três horas depois o corpo ainda esperava a ambulância. Dario morreu deitado na calçada debaixo de chuva sem o guarda-chuva, o cachimbo, o alfinete de pérola de sua gravata, o relógio de pulso, a carteira e a aliança.
Até o fechamento desta edição não fomos informados se foi identificado o corpo ou retirado do local dos fatos. Sabe-se que uma família em algum lugar está chorando a perda de Dario.
Belo Horizonte, 20 de abril de 1958



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