4 de julho de 2010

Amorcão

Eu tenho dois amores especialíssimos. Que me fazem rir e sempre me recebem felizes como se eu fosse o humano mais especial do mundo. Pulam, gritam, fazem manha, me perseguem. Amores de quatro patas. Amores-cão.
A primeira, Drica, uma boxer de quase 10 anos. Era o filhote mais feio da ninhada que me conquistou com a carinha de dó, e as bochechas gordas penduradas. Foi uma grande companheira, e o é até hoje. Chorou na primeira noite, roeu muito sapato, furou muito tapete e cavou muito vaso de planta. Cresceu depressa e virou uma cadela obesa. Sofria quando viajávamos. É obcecada por pães, só de ouvir o barulho do saco de pão já fica doida. Aprendeu a sentar e dar a pata sem esforço. Teve a doença do carrapato estrela, um fungo na orelha, uma úlcera no olho. É cardíaca. Apanhou de chinelo, de tapa, de vassoura, do que tivesse perto. Adotou um porco de pelúcia como filhote. Nunca namorou muito menos teve filhotes. É inteligentíssima, educada, não pula no colo, não liga pro portão aberto, adora andar de carro, sai se pedem licença e baba quando vê comida. Enche a boca de comida e espalha pelo quintal todo deixando minha mãe furiosa. Há pouco deixou de ser um cão calmo e tranqüilo, voltou à vida ativa. Corre, brinca e dorme, dorme muito. Nunca vi um cachorro dormir tanto. Acorda de manhã para comer e dorme o resto o dia. Assusta as pessoas pelo tamanho e a fuça achatada. Não morde, pelo menos nunca mordeu. Não faz mal para uma mosca. É uma criança, o meu bebê. Por mim, viveria eternamente. Sofro em pensar que ela pode ir embora um dia e tenho convicção de que nunca existirá um cachorro como ela. Que só falta falar para ser humano. A minha monstra, Dricão que sempre me recebe feliz rebolando com seus pêlos dourados e brilhantes.
A segunda, Madalena. Ah Madalena! Ganhei de presente. Assim que a vi numa foto pensei: eu quero esse cachorro gordo branco. E consegui. Quando pude pegar aquele filhote gordo nas mãos tive uma felicidade imensa. Eu queria um Bulldog, mas um cão Sem Raça Definida bastou. Chegou pequena, tímida e gorda. Os dentes finos logo mostraram sua potência. Pés de mesa, banco de bicicleta, tapetes, a própria cama, sofá e até eu fomos vítimas das presas afiadas dela. Comeu muita roupa do varal, calcinha, sutiã, cadarço, bolso de calça jeans. Foi minha grande companheira na solidão da vida praiana. Foi feita de gato e sapato por ter medo de fantasma, sofreu na mão minha e da Nathalia. Era um bebê mimado. Apanhou bastante. Hoje apanha muito mais. Com seus pouco mais de treze meses é o inferno da minha mãe. Puxa as roupas do varal para comer o prendedor. Engole pedaços de tapete, de espuma da cama da Drica. É movida a ossos. Foi castrada para evitar filhotes, digo, problemas. Adora fugir para a rua. Morre de medo do meu irmão. Come na vasilha da Drica e o que tiver no chão. Aprendeu a sentar com muito sacrifício. Pula feito um bicho doido. Quando tem medo faz xixi. Marca seu território urinando na própria cama. Faz-se de brava, late ardido toda vez que a campainha toca. É doida, descontrolada, moleca, arteira. Quando me vê pula a cinco metros do chão, lambe, late, faz de tudo para chamar a atenção. Vai viver muitos anos, uns 15, vai fazer um monte de bagunça. É viva, tem uma vida intensa nos olhos amendoados. E uma cor rosa bebê na barriga pelada. Tem um buraco branco nas narinas pretas. É engraçada só de ver. Minha Mad Maria que devolveu vida e gosto de viver à Drica.
Brincam, correm. São irmãs. São dois motivos de felicidade e fúria. Alegram a casa. A vida da gente. Mas também dão: dor de cabeça, custos (comem muito), agonia de pensar em ficar sem alguma. Cachorro é assim, um pedaço da vida da gente. Um pedaço de contentamento e vida.

Um comentário: