Tudo indicava uma noite de sono normal, meu ritual pré-sono estava feito, tiro os óculos, faço minha oração e mergulho nos lençóis. Logo pego no sono. Pronto. Meu inconsciente começa a liberar um turbilhão de informações que logo se transformam num sonho, no meu caso um pesadelo.
Uma casa. Um grande corredor cheio de portas. Isso poderia me lembrar Alice in Wonderland de Lewis Carroll, mas a arquitetura dos anos setenta me confundia ainda mais. Aonde quer que seja esse lugar me deixava completamente confusa de mim mesma.
- Mariana.
Um ruído doce clama pelo meu nome, mas não reconheço a voz, nem o rosto do ser desconhecido de voz encantadora. E esse encanto me leva a uma procura incessante. Abro todas as portas, mas não há nada em nenhuma delas. Saio da casa e nitidamente vejo um grande jardim bem cuidado. A dimensão externa dessa casa tão misteriosa não se parece com nada que eu conheço.
Sigo pela rua vazia e chego a um lugar onde muitas pessoas se reúnem pra algo que eu não sei o que pode ser. A única coisa que eu consigo arrancar da minha memória é a de que eu não podia estar fora de casa. Mas onde é a minha casa?
- Mariana, você veio.
Novamente a voz apaixonante. Diante de mim está uma coisa que não sei se é homem, se é mulher, se é bicho. Nunca a vi antes em toda minha vida. Mas sua sedução sonora me convence a segui-la.
Nunca confiei muito na minha beleza, acho irrelevante tentar ser ou tentar parecer cada dia mais bonito. O bonito pra mim é natural, simples. Mas aquele lugar estava repleto de mulheres fantasticamente bonitas de ser ver. Mulheres que parariam comércio qualquer.
Meu cérebro está atado em nós. O que eu estava fazendo ali? O que eu poderia ter para me juntar a aquelas outras mulheres? Divagações sem limite.
O olhar do ser místico me faz esquecer todas as recomendações de minha mãe. Eu o sigo sem saber aonde posso estar indo. E logo estou novamente na casa com ares retrô.
Muitas pessoas querem me tocar e me tocam como se eu fosse irreal, de outro mundo. Fitam-me e me medem com os olhos desconfiados. Eu estava sendo testada, me sentia sendo testada.
Ouço alguns gritos roucos que não me preocupam muito. Minha principal preocupação era entender tudo que estava acontecendo. E esse entendimento consumia todos os meus neurônios.
Tentam me prender sem que eu perceba que estou sendo aprisionada. Uma das portas se abre e agora me vejo do lado de dentro, sozinha.
Ouço mais gritos. E a ausência total de pessoas faz os gritos tocarem meus ouvidos como um grito de socorro. Eu tenho que sair desse lugar. E saio, com facilidade de quem gira uma maçaneta e abre uma porta.
Aperto o passo e o que me aperta é a curiosidade. Decido abrir uma das portas do grande corredor. Abro e vejo um armário de bonecas.
Bonecas bonitas, que me olham como se entendessem o mundo. Mas não são simples bonecas. São aquelas lindas mulheres com as quais eu deveria ter me juntado. Elas agora são bonecas. Algum processo incógnito a transformaram em lindas bonecas imortais. Bonecas cheias de encanto com um sorriso inocente semelhante ao de uma criança.
Que tipo de ser transforma mulheres em bonecas? Quem compraria esse tipo de boneca? Será que eu também iria me transformar em uma delas?
- Triiiiiim, Triiiiim. Toca o despertador.
Automaticamente meu pesadelo se dissipa no ar. Meus olhos se abrem e as únicas portas que vejo é a do meu quarto e do meu banheiro. Não existem bonecas. Nem seres de voz sedutora. Eu estou inteira e em casa, como recomendou minha mãe.
Diante do espelho a água escorre pelo meu rosto enquanto me observo ali, estaticamente uma boneca de gente. Uma marionete muita vezes impulsionada pelas preferências da sociedade. Pelos modismos e consumos exacerbados. Pode ser sido apenas um sonho maluco, mas prefiro pensar que não o foi. Que sempre tem algo a mais perante nosso subconsciente tão cheio de mistérios.
Minha primeira crônica (perdoem os erros por favor), a primeira a gente nunca esquece! hahahaha
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